quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Nouvelle Perspective - Parte 2

Se passaram cinco dias desde meu encontro com Juliete. Não demorou muito para esses cinco dias se tornarem dois meses passados e o tempo não parava de girar.E em todas as noites lá estava eu presente em seu quarto após cada apresentação sua, era inexplicável o quanto me encantei por aquela mulher, assim como era inaceitável para minha família tudo que eu estava fazendo. Mas eu não precisava de qualquer consentimento ou bênção, meu espaço na elite francesa não fazia a menor diferença para mim, bem como um lugar a menos na mesa de jantar não seria notado.
A preocupação não era com quem eu me envolvia e sim quem se envolvia comigo. A imagem que minha família possuía em toda França perante o resto da Europa chegava a ser maior do que qualquer laço familiar, estava acima até mesmo de qualquer autoridade, até mesmo de nós. Entretanto, como já disse, para mim isso não tem valor algum, tudo que eu podia ver, aliás, o que eu queria ver era aquela courtesan ser minha a cada dia que passasse. Estava saindo do meu quarto aquele dia quando passei pelo quarto de meus pais com a porta semi aberta quando notei que falavam sobre ela. Me encostei na parede e claro, não pude deixar de ouvir.
- Este relacionamento de Alaster pode se tornar um problema. - Alertou meu pai.
- Já é um problema! Você sabe muito bem o que pode acontecer se isto chegar à Corte Françesa, Aldebaran. - Bravejou minha mãe.
- O que pode não, o que irá acontecer. Se a Corte souber que nos misturamos com plebeus, aliás, pior do que isso, com uma courtesan, não teremos mais nossa posição. Fora a imagem que todo o país terá perante ao resto da Europa. Agora eu lhe pergunto, o que faremos Desiré? - Indagou meu pai.
- E pergunta a mim?! Você é o homem desta família e o pai dele! Fale com ele, apresente-o a novas mulheres eu não sei, mas não irei admitir uma prostituta em meio a nós, NUNCA! - Exclamou minha mãe.
- Primeiro, acalme-se. O filho também é seu Desiré e eu não vou tomar parte disto sozinho, a responsável por não tê-lo impedido de sair aquele dia foi você! - Acusou-a.
- Agora a culpa é minha? Você nunca foi firme com ele, sempre o tratou como o bonequinho frágil da família. Agora estamos pagando um alto preço por tal erro, que você cometeu! Aquele pirralho mal agradecido, sempre teve tudo que quis sem precisar ao menos pedir. Não vale sequer meio quilate do berço de ouro que recebeu quando nasceu. - Retrucou de volta.
- Chega! Isto não nos levará a lugar algum, estive pensando e me lembrei de algo. - Pensou.
- O que? - Indagou minha mãe.
- A Princesa Inglesa também estava presente na festa que demos há dois meses e ela também está solteira não é? - Lembrou meu pai.
- Sim. - Disse minha mãe pensativa.
- Pronto! Já tenho a solução, vamos fazer com que Alaster se case com ela. Nem mesmo a rebeldia de Alaster pode desafiar isso.
- É por isto que me casei com você Aldebaran, você é um gênio! - Disse minha mãe com um enorme sorriso em seu rosto. Já eu quando ouvi aquilo, minha única vontade foi de degolar os dois e dar seus restos mortais para os cães de guarda de minha mansão, nem que eu tivevesse que ser deserdado, nem que eu tivesse de mudar meu nome, eu não me casaria com uma porca inglesa, isso jamais.
A raiva tomou conta de mim por completo, mas a pouca razão que havia me restado me dizia para sair dali naquele exato momento e ir para o Le Chat Noir. Sem qualquer dúvida foi exatamente o que fiz, corri para o Hall principal onde estava Argost perambulando sem direção, como se me esperasse.
- Olha só quem apareceu, o cãozinho da prostituta! - Provocou colocando-se sobre meu caminho
- Saia da minha frente agora. - Ordenei.
- Está com pressa? Nem ao menos conversamos sobre sua namorada irmãozinho, soube que ela mora naquele famoso clube na cidade, Le Chat Noir, é isso não é? - Continuou provocando.
- Saia da minha frente agora. - Ordenei mais uma vez.
- Sabia que eu fui até lá um dia e a vi, a que chamam de Juliete não é? Realmente ela é muito bonita, você tem muito bom gosto irmão! - Continuou piorando suas palavras.
- Saia-da-minha-frente-agora! - Ordenei pela última vez.
- Sabia também que sua fama é de ser a melhor prostituta de toda a França? Eu pude confirmar isso pessoalmente! - No segundo seguinte após Argost ter terminado de falar um enorme e súbito surto de raiva tomou conta de mim que me fez pegá-lo pelo seu pescoço e investi seu corpo com toda minha força sobre o grande espelho do Hall Principal entorpecendo-o.
- Suas palavras são tão covardes quanto você! Só não o mato agora porque você não vale mais do que os vermes que vão se alimentar desse seu maldito corpo Argost e por mais que me desse muito prazer em fazê-lo, não vou carregar este peso para sempre. Mas que fique avisado: se chegar perto dela denovo, EU ACABO COM VOCÊ! - Gritei segurando-o pela gola de sua camisa e soltando-o no chão tomando meu caminho de volta para fora da mansão.
- Você... Você não sabe a loucura que está cometendo Alaster, ela não ama você, ela não passa de uma courtesan, uma medíocre oportunista que encontrou um ridículo pagante. Vocês se merecem! - Exclamou Argost com dificuldade.
- No dia em que você souber o significado de uma palavra chamada amor Argost, você vai se alimentar de cada letra que está dizendo agora. - Disse saindo da mansão e me dirigindo à cidade. Mal podia acreditar em tudo que aquele desgraçado havia me dito, mas tudo só me provou uma coisa: o quanto eu a amava. No caminho do Le Chat Noir havia uma joalheria, onde vi uma linda pulseira de safiras que fiz questão de comprar para Juliete. Até hoje não sei o por que de ter feito aquilo, mas aquelas pedras preciosas me lembravam demais o seu olhar, acho que foi por isso, mas não importa. O que era realmente importante seria o que eu precisava dizer a ela, algo que pensei durante minha ida ao clube. Chegando ao local fui cumprimentado como de costume por várias Courtesans que já não me assediavam mais pois sabiam quem eu realmente queria, mas ao mesmo tempo, não pareciam decepcionadas com tal fato. Todas menos uma: Daphné, que se apresentou alguns dias após eu ter ido ao Le Chat Noir pela primeira vez.
- Olá meu Duque, como vai? - Disse ela aproximando-se de mim.
- Vou muito bem obrigado. - Respondi friamente me sentando em uma mesa tirando-a de meu caminho.
- Notei que o senhor trouxe um presente, posso saber para quem é? - Disse olhando para mim se segurando nas bordas da mesa expondo seu grande decote e o aproximando discretamente.
- Eu preciso mesmo responder? - Me aproximei de seu rosto encarando-a.
- Claro, há muitas courtesans aqui, pode ser um presente para qualquer uma de nós. - Abriu um sorriso amarelado em seu rosto não se intimidando com meu olhar.
- É uma pena ou muita sorte que nem todas sejam como você não é Daphné? - Continuei a encarando.
- Eu diria que é muita sorte, posso ser diferente de todas. - Me olhou de forma provocante acariciando minhas pernas.
- Todas vocês são Courtesans, todas são iguais e você não é melhor que qualquer uma aqui. A propósito o show vai começar e vou ter que desviar minha atenção de você, então se não for pedir muito, suma daqui. - Ironizei desviando meu olhar para o palco.
- Que desperdício. - Resmungou Daphné irritada indo em direção ao bar. Após o término do show, da mesma forma discreta de sempre me dirigi ao quarto de Juliete a esperando. Enquanto ela não chegava, resolvi olhar sua vista pela janela e nunca havia visto Paris de um ângulo como aquele, onde a fama de Cidade Luz se fazia confirmar por completo, era algo divino!
- Demorei muito? - Disse ela sussurrando em meu ouvido e me abraçando por trás.
- Sem atrasar um segundo como sempre. - Sorri.
- Então, o que o meu Duque quer de mim hoje? - Perguntou encostando-se em mim.
- Hoje precisamos conversar. - Respondi me virando de frente.
- Pois então, vamos conversar! - Afirmou ela me puxando para sua cama segurando minhas mãos-
- Bom, primeiro eu gostaria de lhe dar isto. - Retirei do meu bolso a caixinha com sua pulseira abrindo-a e a mostrando.
- Alaster... Isso é lindo! Me desculpe mas não posso aceitar. - Disse ela com um enorme sorriso em seu rosto e um lindo brilho em seu olhar.
- Me desculpe mas você vai aceitar sim, só não fiquei cego por que não custou os olhos da cara. Mas me lembrei muito de você quando vi esta pulseira. Ela me lembra seus olhos. - Disse colocando a jóia em seu pulso.
- Você não presta sabia?! - Disse ela rindo. - Muito obrigado, meu Duque. Alaster, suas mãos estão machucadas! O que houve? - Perguntou assustada vendo os cortes causados pelo meu desentendimento com Argost.
- Está tudo bem meu anjo, estava fazendo um drink que levava limões na receita então na hora de cortá-los acabei me ferindo. - Menti.
- E onde estavam seus empregados para fazê-lo para você? - Perguntou indignada.
- Quem precisa de empregados? Eu tenho minhas mãos! - Afirmei.
- Acho que preciso colocar juízo na cabeça do senhor, mas me diga o que queria conversar comigo.
- Juliete... - Olhei em seus olhos.
- Alaster. - Olhou de volta.
- Vou ser direto e claro, minha família não está gostando nada disso que está acontecendo entre nós e por isso eles querem que eu me case com a Princesa da Inglaterra.
- Prossiga. - Disse com um atento olhar de desespero e decepção.
- Mas, estou apaixonado por você. Tenho certeza disso pois em cinco meses que venho aqui, não há mulher que eu deseje mais do que você. Então, quero lhe pedir uma coisa. - Olhei em seus olhos.
- Peça. - Disse ela trêmula segurando minhas mãos.
- Minha courtesan, quer se casar comigo? - A encarei e apertei um pouco suas mãos.
- É isso mesmo o que quer? Abrir mão de uma princesa, de uma vida ao lado de alguém como você para viver com uma courtesan, uma mulher que vive para satisfazer outros homens? - Indagou.
- A única que é como eu é você, não ligo de ser uma Courtesan, mas terá de ser a minha. - Segurei seu rosto.
- Então, sim. - Respondeu ela segurando uma das minhas mãos e não desviando seu olhar do meu.
- Eu juro, que se necessário, eu abro mão do meu próprio nome para ficar com você, eu te amo! - Disse a abraçando.
- Eu também amo você, demais! - Correspondeu ao meu abraço. E assim, é que um homem realmente toma as rédeas de sua própria vida.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Nouvelle Perspective - Parte 1

Nunca gostei de contos de fadas, bem como nunca perdi meu tempo com qualquer história de amor. Essa é a postura na qual a maioria dos homens tomam com relação à paixão e romance. E tudo isso passa a se tornar algo infantil e feminista, onde todo aquele sentimentalismo é tachado como fraqueza, anti-machista e até mesmo como homosexualismo. Entretanto, o irônico de tudo isso é como toda esta ignorância é deixada de lado por causa de uma... Mulher. E quando isso acontece meu amigo, qualquer romance passa a ser ridículo e insignificante, a não ser o seu próprio.
Em Paris, tudo ao seu redor cheira a luxúria, futilidade e ostentação. Isso quando você faz parte da elite francesa, classe social na qual eu pertencia. Eu era filho dos Duques franceses Aldebaran e Desiré Chevalier, e naquela noite estávamos prestes a receber toda a elite européia em um evento que ocorre anualmente e este ano, seríamos os anfitriões. Mas eu não planejava fazer parte da realeza, não hoje.
- Alaster! - Disse minha mãe entrando em meu quarto.
- O que você quer? - Perguntei terminando de me arrumar.
- Arrume-se logo, o evento começará em meia hora. - Avisou.
- Não importa, não pretendo estar aqui esta noite. - Encerrei.
- Aonde pensa que vai? - Perguntou com tom de sinismo.
- Eu não sei, Paris é imensa! - Ironizei.
- Não hoje meu filho, esta noite você não sairá daqui.
- Apenas mande meus cumprimentos ao rei inglês e amanhã, me avise quando será o casamento de vocês. - Respondi me olhando no espelho.
- Moleque insolente! - Gritou minha mãe estapeando meu rosto. - Arrume-se logo e trate de colocar um sorriso nesse seu rostinho.
- Francamente, você fede. - Saí irado de meu quarto indo em direção ao Hall principal.
- Hei pirralho, aonde vai? A festa vai começar daqui a pouco! - Indagou Argost, meu irmão mais velho, parando-me no corredor.
- Aonde vou, não lhe diz respeito. - Respondi tirando-o do meu caminho.
- Melhor assim, sobram mais mulheres para mim. - Ignorando-o desci as escadas encontrando meu pai e antes que pudesse dizer alguma coisa, não disse aonde eu estava indo, apenas que iria dar uma volta. Tomei as chaves do meu carro e saí de minha mansão.
Não havia a menor idéia de onde ir, mas eu havia ouvido rumores de um clube masculino muito bom chamado Le Chat Noir então resolvi ir até lá. Quando cheguei, fui imediatamente assediado por várias Courtesans, apesar de aparecer muito pouco na cidade, todos conheciam a mim e a minha família. Mas ignorando a todas fui de encontro a uma mesa onde o dono do estabelecimento veio pessoalmente dar seus cumprimentos à mim.
- Senhor Chevalier! Que honra ter o senhor em meu clube, meu nome é Dom Pietro às suas ordens. - Disse ele apertando minha mão.
- Muito obrigado, estou procurando um pouco de distração e soube que seu clube é um dos melhores de toda Paris. - Respondi cumprimentando-o de volta.
- É o melhor de todos meu senhor! Lhe garanto que não encontrará moças mais belas do que as presentes aqui! Mas me diga o que posso fazer pelo senhor? - Perguntou me conduzindo ao salão principal.
- Por enquanto apenas uma mesa discreta, não quero chamar mais atenção.
- Muito bem, esta aqui está de acordo com os gostos do Duque? - Perguntou ele apontando para uma mesa bem à minha frente.
- Está perfeita, muito obrigado. - Agradeci me sentando.
- Ótimo, seja o que precisar, pode chamar qualquer uma de minhas Courtesans, garanto-lhe que será uma honra para cada uma atendê-lo jovem Duque! - Disse ele voltando para a entrada do local.
O lugar era muito bonito e realmente fazia jus à fama que tinha, principalmente pelas Courtesans. São todas  maravilhosas, mas nenhuma chamara minha atenção. Isso até o show começar, onde a vi pela primeira vez, tão radiante, tão linda. Era como se cada luz do local a procurasse para iluminá-la e ela era tudo que meus olhos conseguiam enxergar. Eu não sabia quem era ela, mas precisava conhecê-la. Após sua apresentação, perguntei a Dom Pietro onde podia encontrá-la e então fui até os camarins atrás do palco onde lá estava ela terminando de tirar sua maquiagem.
- Olá. - Disse me aproximando.
- Olá cavalheiro, como posso servi-lo? - Respondeu ela um pouco surpresa.
- Estava observando-a e me admirei muito com sua apresentação. E quero passar minha noite com você. - Disse olhando em seus olhos.
- E o que o faz pensar de que serei sua esta noite? - Indagou com certo charme.
- Você é uma réles courtesan, eu sou o filho do Duque francês. Sua obrigação é me obedecer e minha ordem agora é: me dê o seu melhor. - Ordenei.
- Me sinto lisongeada em saber que alguém tão importante como o senhor escolheu a mim para satisfazê-lo, mas devo lhe dizer meu Duque, para ter a mim deverá ser mais gentil. - Alertou.
- Não se preocupe, garanto que terá a melhor noite de sua vida. - A encarei.
- O senhor é tão convicto de si. - Respondeu me devolvendo o olhar abrindo um sorriso amarelado.
- Um homem na minha posição não pode se deixar levar pela insegurança. - Disse me aproximando de seu rosto.
- E nem mesmo pelo calor de uma mulher? - Indagou passeando um de seus dedos pelo meu peito.
- Foi isso que vim buscar aqui. - A encarei novamente.
- Muito bem, acabou de encontrar o que procurava, cavalheiro. - Sorriu encostando-se sobre mim.- Me chame apenas de Juliete. - Disse ela me beijando e me empurrando para sua cama. É incerto dizer que esta havia sido a melhor noite de sua vida, mas eu tinha a absoluta certeza de que aquela mulher não era uma simples Courtesan.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Dezembro

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Cometemos um grave erro. Um preço alto a se pagar pela melhor noite que tive em minha vida. Era uma gélida manhã de Domingo em Londres, onde acordei cedo, vesti sua camiseta e me dirigi ao banheiro de sua suíte. Lavei meu rosto e me olhei rapidamente no espelho voltando para a porta encostando-me no batente. Aproveitei a meia luz iluminando o quarto para observá-lo e naquele momento tomei consciência da loucura que havíamos cometido.
Ele dormia tão tranquilamente, mal tinha consciência do quanto nossas vidas iriam mudar. Então, pensar nas consequências de um ato tão belo porém tão perigoso, me fez entrar em pânico. Lágrimas de desespero corriam pelo meu rosto e tudo que pude fazer foi me encostar na parede e sentar no chão, pois a essa altura eu já havia perdido o controle de mim mesma.
Notando minha ausência ao seu lado na cama, ele despertou e caminhou lentamente em minha direção e sem que eu precisasse explicar qualquer coisa, ele se sentou ao meu lado e me abraçou.
- Erramos não é? - Indagou.
- Sim. - Respondi me aconchegando em seu peito.
- Eu imaginei. - Disse ele olhando para o nada, porém senti muita conformidade e segurança em sua voz.
- Você não está com medo? - Perguntei encarando-o.
- Estou aqui, não estou? - Respondeu ele de forma autoritária.
- Está. - Respondi assustada com seu tom de voz.
- Eu tenho você, não tenho? - Perguntou mais tranquilo.
- Claro que tem. - Respondi ainda assustada.
- Então não há o que temer.
- Mesmo?- Perguntei olhando em seus olhos.
- Mesmo. E se tiver algo que você tenha medo, deixe que eu tema por você. - Respondeu ele com uma voz calma e acolhedora.
- Eu te amo. - Declarei.
- Eu também. - Devolveu-me a declaração. E naquele momento qualquer coisa que pudesse me assustar, havia se erradicado de mim.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Afterlife - Parte Final


Foram apenas 24 horas. Mas foram às 24 horas mais lentas de toda minha vida, porque até então, ainda estava vivo. Mas minha hora de voltar havia chegado; o momento no qual mais esperei durante meu período no Plano Espiritual, meu ferimento à essa altura já estava começando a ferver, a dor me consumia a cada segundo que passava mas minha determinação em retornar para Terra me fazia ignorá-la. Já não importa mais como voltarei e o que terei de fazer. Estou disposto a tudo, nem que para isso eu tenha que voltar mais cedo para cá. A morte é forte, mas ainda não morri. Ícaro estava ao meu lado andando pelos corredores do hospital me conduzindo até o lugar para onde eu realizaria meu desejo, no caminho, procurei pensar em tudo que havia visto e escutado. Apesar de não ter absorvido tudo da maneira certa, aprendi muito aqui. Aprendi que não podemos fazer tudo, mas posso fazer tudo que eu puder. Aprendi que seres humanos são medíocres, mas o quanto são valiosos aqueles que me mostram o contrário e o quanto são importantes para mim. Sacrifícios nunca são em vão, na verdade, é o mais próximo que podemos chegar de um Deus. Não existe nada mais abençoado do que a vida, ela pode ser dura, mas eu sou mais. Milagre não é ver o impossível acontecer diante de seus olhos, é poder ver tudo que é possível ser posto em prática e ainda sim, se contentar com um fracasso.
E enfim chegamos em meu destino final. Era o lugar onde eu havia chego e estava exatamente da mesma forma. Os mesmos papéis jogados nas ruas, os mesmos carros destruídos, inclusive aquele onde Ícaro surgiu pela primeira vez.
- Muito bem Vincent, chegou a hora. – Disse Ícaro parando em frente à mim.
- Estou pronto. – Respondi olhando em seus olhos.
- É realmente isto o que quer? – Indagou mais uma vez.
- Sim. – Mantive meu olhar.
- Pense bem, lembre-se de que você tem um preço a pagar pela escolha que tomou. – Advertiu Ícaro.
- Tenho motivos suficientes pra retornar, e além do mais, voltarei para cá um dia. – Respondi decidido.
- Que assim seja. Mas diga-me Vincent, apenas uma última pergunta: o que o faz querer voltar? O que o motiva a recusar o descanso eterno para ter de volta um lugar tão imundo no qual você aparentemente não fazia a menor questão de estar.
- Minha vida. Não há nada que eu não valorize mais, a única coisa na qual possuo.
- Vindo de alguém que praticava um lento suicídio todos os dias chega a ser surpreendente.
- Uma coisa é você não valorizar sua vida, outra é como cuida de seu corpo. Quando eu morrer minha carcaça não passará de comida de vermes. Não perderei meu tempo cuidando do que está por fora e sim do que tenho por dentro.
- Então você teme a morte? – Disse Ícaro se afastando e dando alguns passos para os lados.
- Não a temo, apenas não quero vê-la tão cedo.
- Você a teme sim. - Afirmou.
- Como está tão convicto disso? - Indaguei.
- Eu sinto isso em você. - Respondeu Ícaro parando em minha frente mais uma vez.
- E o que isso quer dizer? - O encarei.
- Quer dizer que você provavelmente não irá gostar do que verá daqui a um instante.
- Como assim? – Após minha pergunta, uma névoa negra começou a surgir em torno de Ícaro cobrindo-o por completo. Aos poucos a fumaça junto com Ícaro foram desaparecendo surgindo à mesma criatura que havia me atacado quando cheguei aqui. – Você... Você é aquela criatura! – Afirmei espantado ao ver aquele monstro.
- Sim Vincent, eu o ataquei quando chegou aqui. Peço desculpas, não havia o menor conhecimento de quem você era, até ver o crucifixo de sua mãe. – Disse ele vindo em minha direção.
- O que você é? – Indaguei a ele ainda sem reações.
- Sou um Ceifador Vincent, às vezes alguns espíritos de outros círculos acabam vindo para cá e é minha obrigação mandá-los de volta. E este será o seu trabalho em breve.
- O.... Meu?! – Arregalei meus olhos.
- Sim, este é o preço pela sua decisão.
- Como você se tornou isso?
- Você não é o único que não valorizava seu corpo Vincent. E nem foi o primeiro a parar aqui por causa de um acidente. A diferença é que eu era o condutor do carro quando bati em um poste de uma rodovia alemã. E claro, escolhi ficar aqui.
- Mas se escolheu ficar, por que se tornou esta criatura?
- Por que esse é o preço para quem tem o privilégio de escolher entre ficar e voltar Vincent. Sua ferida irá se curar, mas, carregará para sempre esta chaga, até que o próximo bem aventurado surja em seu caminho. Ainda sim, quer voltar e aceitar seu destino?
- Sim. – Respondi sem hesitar, perdendo qualquer medo que ainda habitava em mim.
- Pois bem, me dê seu crucifixo. – Disse ele estendendo sua mão.
- Aqui está. – Retirei o amuleto do meu pescoço e o entreguei. – Entregue isto à mamãe e diga ela que vou querer de volta.
- Vou dizer.
- Obrigado Ícaro, por tudo.
- Não precisa agradecer jovem jornalista. Agora você tem que ir, quando acordar, tudo não passará de um sonho. – Explicou Ícaro amarrando o crucifixo em sua foice. – E lembre-se Vincent, você nunca está sozinho.
- Nunca esquecerei. – No instante seguinte, Ícaro me golpeou com sua foice e uma forte luz branca surgiu em meus olhos.
Quando acordei, estava sendo iluminado pela luz do quarto onde meu corpo estava. Minha visão se clareou aos poucos, quando notei Helena e Barbara ao meu lado, em prantos, mas com um imenso sorriso em seus rostos.
- Isso é um milagre! – Disse Helena pulando na cama e me abraçando.
- Não há outra explicação! – Respondeu Barbara saltando para me abraçar do outro lado da cama.
- Tudo bem, eu ainda estou vivo, mas não por muito tempo desse jeito! Tem o suficiente de mim para vocês duas aqui. – Todos começamos a rir e ficamos alguns minutos dessa forma enquanto eu me recuperava totalmente. – Vocês não vão acreditar no sonho que eu tive!
- Certo, agora descanse e depois você conta para nós este sonho. Agora que você está bem, terá alta amanhã. – Disse Barbara, acariciando meu rosto.
- Só amanhã?! - Perguntei inconformado.
- Isso mesmo, agora fique quieto e descanse. – Ordenou Barbara
- Está bem, mas depois podemos sair para comer alguma coisa? - Sugeri
- Naquela sua cafeteria favorita por exemplo? – Perguntou Helena.
- É por isso que eu te amo sabia?
- Você não me ama, você deve estar querendo transar comigo!
- Juro que não. – Menti, mas disfarcei rindo.
No dia seguinte, após acordar me dirigi ao banheiro e lavei meu rosto, escovei meus dentes como de costume e desci encontrando Barbara arrumando a mesa para o café.
- Bom dia flor do dia! – Brincou Barbara.
- Bom dia pra você também Barbara. – Respondi sorrindo, mas, um pouco entorpecido pelo sono.
- Acordou bem na hora do café da manhã, como sempre. – Sentou-se Barbara.
- O cheiro das panquecas sempre me acorda! – Me sentei ao seu lado.
- Fico feliz em saber que você gosta das minhas panquecas! Enfim, sirva-se à vontade.
- Muito obrigado, madrasta!
- Seu acidente mexeu mesmo com você, até parou de me ver como uma bruxa má. – Disse Barbara surpresa e servindo-se.
- Eu descobri que você não matou a Branca de Neve e nem envenenou a Bela Adormecida. – Brinquei também me servindo.
- Você está bem mesmo? Não quer que eu faça um chá para você ou lhe dê algum remédio para dor de cabeça? – Disse Barbara ainda surpresa colocando as costas de sua mão em minha testa e em minhas bochechas, procurando algum sinal de febre.
- Estou perfeitamente bem! Mas andei pensando em algumas coisas e percebi que estou sendo muito injusto com você Barbara!
- Ao que se refere?
- Ao modo que sempre a tratei desde que a conheço.
- Confesso que nunca esperei ouvir isso, achava que para você eu era alguma terrorista ou Usurpadora!
- Na verdade, vou enxergá-la com outros olhos. Você jamais vai substituir minha mãe, mas tudo que tem feito por mim e pelo meu pai é digno de alguém que merece ser chamada de mãe.
- Minha intenção nunca foi substituí-la Vincent, mas me esforço todos os dias para chegar o mais perto possível dela. Fico muito feliz em saber que você me deu essa chance.
- Desculpe Barbara, você jamais chegará perto da minha mãe, assim como ela nunca chegará a se comparar a você. São coisas totalmente opostas, mas se não fosse você acho que passaria fome todos os dias de manhã, não por opção, e sim por obrigação. Entre tantas outras coisas que você faz.
- Então, agora somos amigos? – Perguntou ela sorrindo.
- Mais do que isso, somos exemplos de relações intraespecíficas positivas! – Respondi retribuindo o sorriso.
- Começou! Vamos comer logo antes que eu fique com dor de cabeça com essa sua língua totalmente desconhecida pela humanidade. – Encerrou Barbara pegando uma torrada junto com um pote de manteiga.
- Como todo prazer! – Terminei pegando uma panqueca e servindo suco de laranja em meu copo.
No fim daquele dia, Helena e eu fomos esvaziar nossos armários e pelo visto, éramos os últimos a recolher todos os livros de três anos de estudo.
- Enfim, acabou. – Disse a ela enquanto colocava meus livros dentro de uma caixa.
- Pois é esses três anos passaram como 3 segundos. – Respondeu Helena fazendo o mesmo.
- Não sei como você me agüentou durante três anos, confesse: eu nunca te enchi o saco? – Indaguei colocando meu último livro na caixa.
- Está brincando? Você me enchia o saco todo dia! – Exclamou Helena, colocando em uma nécessaire alguns cosméticos que guardava em seu armário quando uma foto caiu de dentro dele.
- E o que é isso? – Disse pegando a fotografia. – Não acredito! – Exclamei espantado com o que estava vendo.
- Hei! Quem disse que era para você ver isso?! – Respondeu Helena, vermelha de vergonha.
- A nossa primeira foto juntos e... Olha só, uma dedicatória no verso! – Virei a imagem e comecei a ler o que estava escrito: “As pessoas acreditam que vão viajar para o verão, mas você e eu vivemos e morremos. O mundo está girando e não sabemos por quê.”
Oasis, Champagne Supernova. Que por acaso, foi a música que mostrei a você no dia em que nos conhecemos.
- É sim, agora me dá isso aqui! – Disse Helena tomando a foto de minhas mãos.
- Eu não sabia que você guardava isso ainda. – Disse a ela encostando-me nos armários a observando.
- Tem muita coisa que você não sabe seu troca letras desgraçado! Mas, me diga, vai mesmo querer ser um jornalista? – Disfarçou Helena.
- Você não tinha uma desculpa melhor estilista de brechó? – Sorri.
- Desculpa para quê? – Disse Helena me encarando.
- Desculpa para disfarçar o que eu e você escondemos um do outro nesses três anos. – Fiquei de frente para ela me apoiando com um dos braços no armário a encostando no mesmo.
- E o que escondemos um do outro todo esse tempo? – Perguntou Helena olhando em meus olhos.
- O fato de que você é louca por mim e que sou apaixonado por você desde a primeira vez que a vi entrando na sala de aula e se sentando ao meu lado. – Correspondi ao seu olhar.
- E como se sente? – Perguntou mordendo seus lábios.
- Que já esperei demais para fazer isso. – Disse passando minha boca pelo seu rosto.
- Então faça. – E eu a beijei. Quando senti o toque de seus lábios pela primeira vez foi como se tudo ao meu redor tivesse deixado de existir. Tudo que eu podia ver era Helena. E naquele momento, havia encontrado algo no qual, valia à pena viver - Vincent. – Disse Helena parando o beijo e me encarando.
- Helena. – Respondi acariciando seu rosto.
- Eu te amo. – Isso soou como uma punhalada no coração, mas eu não sentia dor alguma.
- Eu também te amo. – Respondi a abraçando. – E aquela história sobre transar, foi pra valer? – Brinquei.
- Daqui a 2 anos quem sabe, seu safado! – Respondeu Helena me estapeando e rindo.
- A propósito, lembra que eu ia te contar sobre meu sonho?
- Lembro sim, me conte tudo! Em detalhes.
- Foi à coisa mais louca! Eu tinha acordado em uma cidade deserta, aí um ceifador veio atrás de mim e depois ele virou um cara com um terno preto muito estiloso e começou a me explicar tudo sobre o lugar e eu vi a minha mãe! A gente conversou muito sobre tudo, até falei de você para ela...
E desde então, se passaram 20 anos desde meu acidente. Me tornei um jornalista e Helena virou uma brilhante estilista com uma marca e várias coleções próprias! E também nos casamos. Barbara e eu nos tornamos ótimos amigos, aprendi a enxergá-la com outros olhos assim como nunca mais cheguei perto de qualquer droga. A não ser a tão tradicional Vodka, mas só uma vez por semana no fim de um expediente. Vivi muito bem até completar 37 anos quando descobri um tumor cerebral que me tirou a vida. E como já era certo, retornei para o Círculo Um, mas dessa vez para ficar. Onde fui recebido por Ícaro e minha mãe, já pronto para começar meu novo trabalho.
Foram anos e anos guardando o Círculo Um, vi toda minha família se reunir comigo, todos da forma em que desejavam estar. Helena estava como eu, Barbara e papai estavam mais velhos. E assim vivi minha eternidade até um dia quando surgiu um espírito diferente. Ele havia saído de dentro do hospital e estava com um ferimento em seu peito causado por uma bala vinda de uma arma de fogo. Estava prestes a atacá-lo transformado em Ceifador quando notei que ele portava um crucifixo diferente do meu. Então fui para trás de um carro, tomei minha forma humana e me sentei no capô do automóvel eobservando o rapaz.
- Você é novo por aqui e se saiu muito bem! – Exclamei olhando-o se levantar.
- Quem é você? Que lugar é esse? O que era aquilo? – Disse se levantando e me encarando.
- São muitas perguntas, mas explicam o porquê de você ser um jornalista! – Disse para ele rindo.
- Quer parar de rir de mim e responder o que perguntei? – Respondeu impaciente.
- Tudo em seu tempo jornalista! Meu nome é Vincent e este lugar bom, você que é um grande entendedor da literatura, podemos dizer que é como os Campos Elíseos da Divina Comédia de Dante Alighieri.
- Campos Elíseos? Aquilo queria me matar e você chama isso aqui de paraíso?! – Indagou assustado.
- Te matar? Você já está morto! – Parou por um instante, arregalou seus olhos e parece que dessa vez, a ficha acabara de cair.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Afterlife - Parte 5


Por mais que eu pensasse o contrário, nada nunca foi tão real quanto aquele momento. Foi como receber uma bênção de uma divindade, iluminado pela aura do mais belo anjo; no instante em que ela entrara em meu quarto foi como de forma instantânea minha mente se esvaziasse de tudo que era bom ou ruim, cada centímetro do meu corpo estava voltado a ela. Olhei-a várias vezes de cima a baixo, mas não conseguia desviar de seus olhos, desvaneci em meio ao seu sorriso. Qualquer descrição para um momento simbólico e sagrado como este seria completamente irrelevante, pois qualquer palavra que ousasse sair da minha boca não seria suficiente para classificar o sentimento que tomara conta de mim naquele instante.
- Obrigado Ícaro, agora deixe-nos a sós, por favor . – Disse ela desviando seu olhar para Ícaro.
- Com sua licensa Diana. – Retribuiu Ícaro com um sorriso deixando o quarto e fechando a porta. - Meu filho... – Disse Diana voltando seu olhar novamente para mim.
- Por quê? Tanto tempo sozinho e a encontro pela primeira vez.... Aqui. – Com muita dificuldade dirigi estas palavras à minha mãe.
- Está tudo bem agora, estou aqui. – Aquilo soou para mim como um golpe de misericórdia, tudo que consegui fazer foi cair de joelhos perante sua presença e a abraçar. Senti percorrendo meu rosto lágrimas que formigavam minha pele e em resposta, ela abaixou-se limpando meu rosto e correspondeu ao meu abraço .
- Tudo que eu sempre quis, ninguém nunca pode me dar. Nunca precisei de ninguém em toda minha vida, por que isso agora? Não está certo, nada aqui faz o menor sentido! – Disse ainda abraçado com ela ao chão.
- Vincent, você está em outra vida agora. Tudo aqui tem um sentido e um ideal, você ainda está muito confuso, chegou a muito pouco tempo aqui. Mas logo entenderá. Agora deixe-me olhar para você, quero ver o meu filho de perto. – Disse minha mãe confortando-me segurando meu rosto e sorrindo para mim.
- Você... É tão linda. – Respondi, segurando uma de suas mãos, sentindo-a.
- Seus olhos, seu cabelo, se você não fosse um homem, acho que iriam achar que criei um clone meu dentro da minha barriga durante 9 meses. – Brincou.
- O papai sempre disse que Deus resolveu trocar você por mim e que para ele sofrer menos, me fez o mais parecido possível com você.
- Ah seu pai. Como sinto falta dele, mas sempre estou o vigiando. Fiquei muito feliz que ele tenha encontrado alguém para amar. Barbara é uma boa mulher, é muito bom vê-lo feliz com ela ao seu lado. Mas há alguém que parece não gostar muito dela, não é mocinho? – Disse minha mãe com um tom adversativo.
- Mãe, veja bem: Eu gosto dela e a respeito. Apenas não sou simpático! – Respondi envergonhado.
- Você tem um raciocínio bem rápido meu futuro jornalista, mas é péssimo em disfarçar seus sentimentos. – Retrucou de volta se levantando e se dirigindo à cama do quarto comigo.
- Admito que ela faz muitas coisas boas por mim e que faz o máximo que pode para compensar minha ausência materna, mas mãe, não é a mesma coisa! É como se ela tentasse ser você. – Sentei junto com minha mãe deitando-me sobre seu colo.
- Filho, ela jamais será sua mãe. Esta sou eu, mas você precisa dar uma chance a ela. Barbara não quer tomar o meu lugar e sim cuidar de você como eu cuidaria. – Parei por um instante sentindo meu cabelo sendo acariciado.
- Mas mãe, como eu posso enxergar você em uma pessoa que nem ao menos esteve presente em todos meus momentos?
- Eu posso ser a sua mãe biológica e estarei sempre aqui. Mas na Terra é ela que cuida e cria você Vincent. É isso que uma mãe faz com seus filhos não é?
- Sim...
- Pense nisso, você verá o quanto Barbara poderá ser boa para você assim como Helena que, diga-se de passagem, seria uma ótima namorada!
- Mãe! – Encarei-a ficando avermelhado de vergonha.
- O que foi? Você gosta dela não gosta? Não me esconda nada filho, uma mãe sabe de tudo!
- Somos apenas bons amigos mãe...
- Você diz isso por que nunca parou para olhar o jeito que ela o olha.
- Como sabe de tudo isso?
- Estou sempre olhando você e seu pai, ou acha que só por que estou aqui me esqueci dos meus homens em Terra?
- Saber disso me conforta demais, mas confesso que sobre Helena, bom é a única amiga que eu tenho e sou o único amigo que ela tem, então...
- Então, por que não tornar isso algo maior?
- Somos muito diferentes mãe! Ela quer ser estilista e gosta de muitas coisas que não me agradam.
- E você quer ser um jornalista que também gosta de muitas coisas que não agradam a ela, um perfeito encaixe não? E além do mais, vocês se dão muito bem Vincent! Não deixe isso escapar, não tenha medo de amar e ser feliz. Mas essa felicidade nunca virá se você continuar com certos vícios.
- Não mãe, não me diga que...
- Sim Vincent, eu vi você usando drogas. Filho porque sustentar isso?
- Elas me ajudam a esfriar a cabeça, meu dia-a-dia me força a usá-las!
- Quer esfriar a cabeça, tome um banho de água fria, usar drogas é o mesmo que se suicidar filho, por muito pouco você não foi parar no círculo 2.
- Se era lá que eu merecia estar, por que vim parar aqui então?
- Porque você não desencarnou devido às drogas filho, você não pediu para vir para cá do jeito que veio.
- Do mesmo jeito que não pedi para estar aqui mãe!
- Mas você está Vincent, você precisa aceitar isso.
- Eu tenho muitas coisas pendentes para fazer em Terra ainda!
- Pode fazer todas elas aqui meu filho.
- Não mãe, não escolhi estar aqui e preciso voltar, Barbara, Helena e o papai vão sentir minha falta. Como já devem estar sentindo.
- Vincent, você não sabe o que está dizendo, voltar apenas por eles não valerá a pena. Me escute!
- Não são só eles mãe, é a mim também. Posso não valorizar minha vida, mas tenho muitos planos e quero realizar todos!
- Se desapegue da matéria, no final de tudo você não levará nada de lá Vincent!
- Mãe tente me entender eu... Ah Maldição! – De repente meu ferimento começou a doer profundamente.
- É sua ferida não é? Deixe-me ver. – Disse retirando minha franja do meu ferimento analizando-a. Vincent, essa dor pode passar, é só você aceitar ficar aqui.
- Ela também pode passar quando eu retornar ao meu corpo. – Respondi com minha voz trêmula. – Não entendo, você me deu tantos conselhos para seguir na Terra e agora insiste tanto para que eu fique.
- Ainda me restava uma esperança de que eu conseguiria fazer você ficar Vincent.
- Mãe, mesmo que eu vá, eu voltarei um dia e dessa vez, para sempre.
- É isso mesmo o que quer?
- Sim.
- De todo seu coração?
- De toda minha alma que aqui se encontra.
- Não há alegria maior para uma mãe do que ver o seu filho realmente feliz. E neste momento, não há orgulho maior para mim do que saber que o meu próprio filho, já se tornou um homem. – Sorriu colocando uma das mãos sobre meu rosto e com seus olhos mareados.
- Eu te amo mãe. Me perdõe por todos os erros que cometi na Terra e pelos que ainda vou cometer.
- “Quando pensar que tentamos de tudo e até mesmo as possibilidades de fazer tudo certo, continuaremos a praticar os mesmos velhos erros. Fazendo tão inesperada e facilmente um equilíbrio de quando vivemos no limite de nossas vidas, faça uma oração no livro dos mortos.”
- Blood Brothers, Iron Maiden, eu adoro essa música.
- Sua mãe também era uma roqueira! E foi essa a música que escutei enquanto estava grávida de você Vincent. E a última que ouvi antes de morrer. – A abracei enquanto suas lágrimas molhavam meu ombro.
- Mãe, me explica por que o Céu é azul? – Sorri.
- Desculpe filho, não posso. Senão terei de lhe explicar a grande fúria do mundo também! – Respondeu rindo.
- Filho, gostaria de passar a eternidade com você, mas não agora. Eu tenho que ir, meu dever me chama.
- Não mãe espere! Ícaro me disse que você me diria o que eu teria que fazer para voltar para a Terra.
- Não Vincent, será ele mesmo que irá lhe dizer. Por mais que seja minha obrigação fazer isso, a responsabilidade é dele.
- Mãe... Quando a verei denovo?
- Só o destino dirá meu filho, mas lembre-se: Você nunca está sozinho. Quando quiser me ver, basta fechar seus olhos. Até breve, meu jornalista. – Ela abraçou-me, beijou minha testa e desapareceu.
Naquele momento um vazio imenso tomou conta de mim. Me sentei encostando-me na parede da janela olhando para o nada. Pensando em minhas próprias escolhas, mas tudo que podia sentir era uma dor, mais funda do que minha ferida. Uma chaga na qual só eu poderia erradicar de mim. Então fechei meus olhos procurando inutilmente segurar minhas lágrimas.
- Foi um momento surreal não? – Disse Ícaro surgindo ao meu lado encostando-se na parede.
- Só queria ficar por mais tempo, muito mais.
- Você escolheu isso e sabia das conseqüências, nada no universo é relativo. Ou é uma coisa ou outra, jamais as duas. É a única coisa que nem seu livre arbítrio é capaz de ultrapassar.
- Livre arbítrio, universo. Não estou nem aí para isso, só quero... Estar em seus braços mais uma vez.
- Ela estará em todos os lugares Vincent, nunca se sinta sozinho, jamais.
- Então por que me sinto tão solitário?
- Por que você faz da sua vida um poço de solidão. Com tão poucas pessoas fazendo tanto por você.
- Eu não sei de mais nada...
- Sabe sim Vincent e o que está esperando para receber esta segunda chance mais uma vez?
- Um milagre, quem sabe. – Desviei meu olhar para Ícaro.
- Sabe Vincent, milagre de verdade é alguém que não possui metade da vida que você tem e ainda acordar sorrindo todos os dias. É uma mãe encontrar seu filho em outra vida e restabelecer laços que a Terra rompeu. – Disse Ícaro sentando-se ao meu lado e olhando para mim.
- Posso mesmo fazer isso?
- Você deve.
- Obrigado Ícaro, de verdade. – Estendi minha mão cumprimentando-o.
- Não há de que jovem jornalista. – Respondeu retribuindo o gesto. – Mas agora vamos, você precisa voltar para a Terra antes que seja tarde.
- Sim. – Disse me levantando e puxando-o comigo.
- Mas antes eu gostaria de pedir uma coisa.
- O que?
- Posso ir ao banheiro?
- Está brincando não é? - Indagou Ícaro levantando uma sobrancelha.
- Estou sim, foi só para descontrair.
- Engraçadinho, vamos.
- Depois de você.
- Obrigado.

E naquele momento, um mundo novo iria surgir. Tudo seria diferente, uma vida nova está para recomeçar para mim, para todos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Afterlife - Parte 4


Depois de tudo que vi e escutei voltei para o meu quarto no hospital e dormi um pouco. No dia seguinte acordei com uma forte dor em meu ferimento, mas ignorando-a me levantei e fui em direção à janela do quarto para observar a cidade. Tudo aqui era tão calmo e tranquilo, realmente é o lugar perfeito para ficar por toda a eternidade, mas eu não a queria ainda; o meu lugar não é aqui agora. Porém, por mais que quisesse voltar, algo me fazia querer ficar no Zero. Não sei explicar o que é, me fazia sentir um conforto semelhante ao colo de uma mãe quando abraça seu filho, na paz de um amor materno. Mas eu precisava voltar, tinha que fazer o que nem ao menos tive chance de começar: a minha própria vida.

- Está pensando alto demais jornalista! - Disse Ícaro surgindo no quarto e encostando-se na porta.

- Nem depois de morto tenho privacidade? - Resmunguei encarando-o.

- Você irá se acostumar, mas diga-me, como foi sua primeira noite aqui?

- Ótima, a não ser pela dor de cabeça que está me matando!

- Te matando? Ora Vincent, já se esqueceu que ela já te matou? - Brincou Ícaro.

- Engraçadinho, mas falando nisso se estou morto, por que ainda sinto dores?

- Este é o motivo da minha visita.

- Sou todo ouvidos.

- Pois bem, trago notícias que vão lhe interessar muito. Notícias vindas diretamente da Terra, Vincent.

- Da Terra?! - Exclamei.

- Sim, e ela explica o porquê de você ainda sentir tantas dores.

- E qual é essa notícia?

- Vincent, seu corpo não morreu. - Parei por um instante e me aproximei de Ícaro.

- Como assim não morreu?

- No momento do acidente, você desencarnou. Mas como seu corpo não havia morrido, seu espírito ainda está ligado a ele. Por isso você despertou no hospital, para se recuperar junto com seu corpo, que aliás, também está em um hospital na Terra.

- Deixe-me ver se entendi: meu corpo está em um hospital se recuperando, eu que me encontro no estado espiritual aqui estou fazendo a mesma coisa e como meu corpo ainda está ferido na cabeça, sinto as suas dores, certo?

- Perfeitamente.

- Mas como meu corpo ainda está vivo, se estou há um dia inteiro aqui?

- Porque o tempo na Terra é mais lento do que aqui Vincent. Uma hora no plano físico corresponde a um dia aqui.

- Então, isso aumenta minhas chances de voltar!

- Tecnicamente sim, mas como eu disse, nada se consegue sem sacrifício e merecimento Vincent.

- Certo Ícaro, e eu lhe pergunto mais uma vez, o que tenho que fazer?

- Não serei eu que dirá isso a você. E sim a pessoa que me mandou dizer esta notícia e quer muito vê-lo agora.

- E quem seria essa pessoa? - Após minha pergunta, Ícaro se desencostou da porta e a abriu mostrando uma mulher com olhos iguais aos meus, mesma cor capilar e com cerca de 30 anos usando um vestido branco.

- Você cresceu. E está divinamente lindo... Meu filho.

E mais uma vez, o tempo acabava de parar para mim.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Afterlife - Parte 3

Eu estava morto, era um fato que eu deveria aceitar. Mas cada vestígio mental que ainda me restava simplesmente se recusava a acreditar nisso. Imediatamente após as palavras de Ícaro, as imagens do acidente que me tirou a vida passaram pelos meus olhos. Dei alguns passos em direção a um carro e olhei meu reflexo pelo vidro dianteiro onde notei que eu possuía um profundo corte na minha testa. Passei uma das mãos pelo ferimento e senti uma aguda dor.

- Tudo está claro agora não é? – Disse Ícaro se aproximando de mim e ficando ao meu lado.

- Foi tudo tão... Rápido. – Respondi, encarando meu próprio reflexo. – Eu não posso estar morto, só tenho 17 anos! Como isso pôde acontecer?!

- Você poderia ter até mesmo 50 anos, quando à sua hora chega, nada impede as coisas de acontecerem Vincent. – Explicou Ícaro.

- Que lugar é esse? – Indaguei desviando meu olhar para Ícaro.

- Como eu disse, estamos em uma dimensão que se assemelha aos Campos Elíseos, chamada de Zero. Aqui é o lugar para onde vão aqueles que foram mortos em acidentes, você teve muita sorte de vir parar aqui. Venha, vou lhe explicar. – Ícaro pôs uma das mãos em um dos meus ombros e começamos a andar pela cidade.

- Eu poderia ter ido parar em um lugar, pior? – Indaguei.

- Zero é o primeiro dos cinco vales por onde os mortos podem ir, o que define para onde eles vão são suas ações na Terra. E são eles Zero, Um, Dois, Três, Quatro e Cinco. O vale Um é para onde vão os suicidas, Dois os viciados, Três os corruptos, Quatro os assassinos e Cinco o último e pior de todos, é para onde vão os estupradores e pedófilos. Estive observando você alguns meses antes de sua morte e você era um cara bem perturbado Vincent. Confesso que me impressionei devido ao vale que você veio parar e no lugar onde você parou nele. Eu estava certo de que você iria para o vale Um ou Dois.

- Um ou Dois? Não entendo, eu nunca tentei suicídio em toda minha vida! E também não tenho nenhum vício. – Exclamei.

- Nunca tentou se matar porque você já estava morto Vincent, morto por dentro. A única coisa que mantinha sua alma na Terra era o seu corpo, coisa que você não andava cuidando muito bem. Ou por acaso já se esqueceu do álcool e das drogas, isso é considerado suicídio, uma lenta e dolorosa morte. – Continuou Ícaro com sua explicação.

- Certo, se meu propósito em Terra terminou, qual é o meu aqui? – Indaguei.

- Isso é algo que terá de descobrir sozinho jovem jornalista. Sem mais perguntas, agora preciso ir. – Disse Ícaro afastando-se de mim.

- Ícaro espere! Eu não posso ficar aqui, tenho muitas coisas ainda para fazer em Terra e Barbara e Helena sentirão minha falta. Não há um jeito de voltar?

- Ora Vincent, para que voltar? Olhe a sua volta, todos que estão aqui são privilegiados. Está vendo este Sol que nos ilumina? Ele é o sinal de toda a esperança e prosperidade deste lugar. – Encerrou Ícaro.

- Então há como voltar. – Concluí.

- Eu não disse isso.

- Mas quis dizer, eu posso ser um privilegiado, mas não escolhi estar aqui. E pelo que sei, nem mesmo a vontade do destino pode intervir em meu livre arbítrio.

- Perfeitamente. Entretanto, você também não escolheu ser atropelado e isto não depende da sua vontade.

- Correção: a vontade dos outros não corresponde a mim. Lembro muito bem que o farol estava vermelho para o trânsito no momento do acidente, portanto não foi um erro meu.

- Tudo que fizer em Terra irá influenciar em todos à sua volta. Assim como o motorista que o atropelou. Ele escolheu infringir as leis de trânsito e como consequência, você veio parar aqui.

- Por isso mesmo, das coisas que fiz em Terra, não era para eu estar aqui.

- Claro que não, era para estar em outro vale. Se quiser pode ir para algum deles, mas garanto-lhe que não são como o Zero.

- Eu não estou dizendo que quero ir para outro vale. E sim que quero voltar para Terra.

- O vale Zero, possui este nome porque é onde aqueles que foram bons no plano físico, podem recomeçar, mas aqui.

- Eu quero voltar.

- Persistente, curioso, inteligente. Um perfeito jornalista; você seria brilhante em sua profissão garoto. Pois bem, é isso mesmo o que quer? – Indagou de forma intrigada Ícaro.

- Sim.

- Mas terá um preço.

- E qual é?

- Nada se consegue sem merecimento e sacrifício Vincent. Até lá, o quarto onde despertou será sua casa. Em breve nos veremos de novo.

- Isto aqui por acaso é o Céu? – Perguntei.

- Não existem Céu e Inferno garoto, e sim a eternidade. – Respondeu Ícaro desaparecendo.

Enquanto retornava ao hospital fui refletindo sobre tudo que Ícaro havia me dito, no fundo, eu queria voltar, eu precisava. Mas se estou aqui não é por acaso. Chegando ao hospital, me sentei em um degrau da escada na entrada principal. Retirei o bilhete do meu bolso e o encarei por um instante quando de repente, várias pessoas começaram a transitar pelas ruas. O Sol estava mais radiante do que nunca e pela primeira vez, eu não estava sozinho.